Nanã

A mais antiga dos orixás: senhora da lama primordial, das águas paradas e do pântano. Dona da matéria de que a humanidade foi moldada e do destino para onde retorna. Vida e morte na mesma mão. Saudação: "Saluba Nanã!".

Ibiri — o cetro ritual de Nanã, feito de fibras, contas e búzios.
Ibiri — o cetro ritual de Nanã, feito de fibras, contas e búzios.Toluaye, Public domain via Wikimedia Commons

Quem é

Nanã (Nànã, também Nanã Buruku ou Nanã Buruquê) é a mais antiga e venerável entre os orixás — a anciã, a avó do panteão, anterior mesmo à chegada de Ogum e do ferro ao mundo. Ela é a senhora da lama primordial, do barro do fundo dos pântanos, das águas paradas e profundas que não correm. Sua sabedoria é a do tempo longo, da paciência da terra que tudo recebe e tudo decompõe.

De origem jeje/fon, seu culto vem da região de Dassá-Zumê e Savê, no antigo Daomé (atual República do Benim), e é dos mais antigos de toda a África Ocidental — entre os povos fon, mahi e ewe ela é cultuada como vodum, e no Candomblé Ketu, como orixá. Diz-se que Nanã já estava presente quando a Terra foi fecundada: é “o orixá mais antigo do mundo”. O próprio nome, em leitura iorubá, evoca a ideia de raiz — aquilo que está no interior da terra, sustentando tudo o que dela brota.

O barro emprestado: a dívida da vida

O itã mais célebre de Nanã explica por que os seres humanos morrem.

Quando Oxalá (Obatalá) recebeu de Olodumare a tarefa de modelar os seres que povoariam a Terra, tentou dar forma ao homem a partir do ar, do fogo, da pedra e da madeira — e em nada disso a vida se firmava. Foi então que recorreu a Nanã. Do fundo do pântano onde morava, a anciã retirou uma porção de barro úmido e a cedeu a Oxalá. Com aquela lama o corpo humano foi enfim moldado, e Olorum lhe soprou o alento.

Mas Nanã impôs uma condição: aquele barro era emprestado. Quando os homens morressem, seus corpos teriam de lhe ser devolvidos. Por isso o ser humano não vive para sempre — o barro de que é feito um dia precisa voltar a quem o cedeu. Ao morrer, o corpo retorna à terra: volta a Nanã. Ela é, ao mesmo tempo, a doadora da matéria da vida e a credora dela, guardiã do portal entre os vivos e os mortos. Dá o começo e recolhe o fim.

Em algumas casas, quem pede o barro é descrito genericamente como Olodumare; o cerne — barro emprestado e devolvido na morte — é o mesmo em todas.

Vida e morte na mesma mão

O que torna Nanã uma das figuras mais profundas do panteão é que ela não separa nascimento de morte. Onde outras tradições põem dois deuses opostos — um da vida, outro da morte —, Nanã é os dois. A lama que gera o corpo é a mesma que o reabsorve. O pântano que parece estagnado e morto é, na verdade, o ventre mais fértil: é da água parada e da matéria em decomposição que brota a vida nova.

Ela carrega o ibíri, um cetro feito de nervuras de palmeira, palha-da-costa, cabaça, contas e búzios, com que rege esse trânsito entre os mundos e conduz os eguns (os espíritos dos mortos). O ibiri é a imagem da própria ancestralidade: o ancestral que ampara e dá base à descendência, como um corpo encurvado que abriga outro. Nanã não usa metal — ela é anterior à era do ferro, e o ferro, instrumento que corta e fere, lhe é interdito. Sua força não corta: dissolve e transforma.

O conflito com Ogum e o interdito do ferro

Por que Nanã não admite o ferro em seu culto? A resposta está num dos itãs mais contados sobre ela.

Numa assembleia dos orixás, Ogum, senhor de todos os metais, foi aclamado como o mais indispensável de todos: era graças a seus instrumentos de ferro que se podia caçar, plantar e viver. Nanã contestou aquela supremacia. Ogum, irritado, desafiou-a: “Quero ver como vais comer, sem faca para matar os animais.” A anciã respondeu que jamais usaria coisa alguma fabricada por Ogum — e que, ainda assim, faria tudo o que precisasse. Para provar, sacrificou os animais sem metal: com uma faca de madeira, ou, em outra versão, torcendo o pescoço dos bichos com as próprias mãos.

Desde então, no culto de Nanã, nada de metal: as oferendas e os sacrifícios se fazem com instrumentos de madeira ou bambu, ou cobrindo a lâmina com um pano. Algumas casas contam a origem do conflito de modo diferente — Ogum tentava invadir os territórios lamacentos de Nanã, provocando-a — mas o desfecho ritual é sempre o mesmo: a senhora da lama não recebe o ferro. Há ainda quem leia o interdito como sinal de sua antiguidade: Nanã é anterior à Idade do Ferro, e por isso o desconhece.

A anciã e sua linhagem

Nanã é mãe de Omolu/Obaluaê — o orixá da terra, da doença e da cura — e, em muitas tradições, também de Oxumarê (o arco-íris, o ciclo) e de Ewá (a possibilidade, a vidência). Sua relação com os filhos é descrita como ambivalente e contraditória: ora os exalta, protege e salva, ora os esconde, reprime e afasta.

O caso mais doloroso é o de Omolu. Conta o itã que ele nasceu com o corpo coberto de feridas e chagas. Nanã, não suportando ter gerado um filho assim, abandonou-o à beira-mar, para que a maré o levasse — e na praia os caranguejos ainda o feriram. Foi Iemanjá quem o recolheu, cuidou de suas chagas com folhas de bananeira, alimentou-o e o criou como filho, até que ele se tornou senhor da cura. Dessa linhagem nascem, pois, os orixás que regem o tempo, o destino e a fronteira entre saúde e morte. Nanã é a raiz de onde brota a compreensão de que tudo que vive está em trânsito.

As listas de filhos variam entre as casas: além de Omolu, Oxumarê e Ewá — os mais consensuais —, algumas tradições incluem também Ossaim. A própria paternidade (com Oxalá) é contada de formas distintas conforme a nação.

Como Sant’Ana — a avó, mãe de Maria — com quem foi sincretizada no Brasil e celebrada em 26 de julho, Nanã é a ancestral que carrega a memória de tudo. É procurada por sabedoria, por serenidade diante da morte e pela cura das aflições que vêm da pressa e do desequilíbrio. Diz-se que seus filhos de santo herdam seu temperamento: pacientes, maduros, sábios e justos, mas dados ao apego ao passado e a uma sinceridade que não poupa ninguém.

Domínios

  • Lama e barro — a matéria primordial de que a vida é feita.
  • Águas paradas — pântanos, brejos, lagos profundos; a fertilidade do que parece imóvel.
  • Ancestralidade — a memória antiga, a paciência do tempo longo, a condução dos eguns.
  • Vida e morte — o ciclo completo, dado e recolhido pela mesma mão.

Perspectiva do jogo

Nanã é, para a Wiki, o princípio do ciclo barro→vida→barro — a sabedoria de que morte e nascimento são o mesmo movimento visto de dois lados. Isso ressoa profundamente com o eixo mesopotâmico do jogo: a descida ao mundo inferior de Ereshkigal, a humanidade moldada do barro pelos deuses sumérios (eco direto do mito do barro emprestado de Nanã), e a aliança de Aurora com a senhora da morte como caminho de renovação, não de fim. O barro que Nanã empresta e cobra é o mesmo de que, na Suméria, os deuses moldam os homens — e ao Kur, a terra sem retorno, é que esse barro um dia volta. Onde há barro que vira gente e gente que vira barro, há Nanã.

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