Astarte

Versão cananeia/fenícia de Ishtar. Cultuada no Levante e exportada pelo comércio fenício por todo o Mediterrâneo — ponte para a origem oriental da Afrodite grega.

Estatueta da deusa cananeia/fenícia identificada como Astarte
Estatueta da deusa cananeia/fenícia identificada como AstarteLouvre (AO 20127) via Wikimedia Commons

Etimologia

Astarte (fenício ʿštrt, ʿAshtart) é o cognato cananeu-fenício direto do acadiano Ishtar — todos vêm da raiz semítica 'ṯtr. Em Ugarit (séc. XIV a.C.) aparece como ʿAshtart ou ʿAttart; em hebraico bíblico é ʿAshtoret (com vocalização polêmica imposta pelos massoretas, que substituíram as vogais corretas pelas de bošet, “vergonha”, como recurso polêmico contra os cultos cananeus rivais ao monoteísmo). Em grego antigo, Astártē (Ἀστάρτη).

Quem é

Astarte é a principal deusa do Levante cananeu-fenício durante a Idade do Bronze tardia e do Ferro (~1500–500 a.C.). Herda o complexo amor-e-guerra de Ishtar, mas com modificações regionais:

  • Marítima. Os fenícios eram o povo navegador do Mediterrâneo, e Astarte é frequentemente invocada como protetora dos navios. Templos costeiros em Tiro, Sidom, Biblos.
  • Cívica. Está fortemente ligada à realeza das cidades-estado fenícias — reis se autointitulam amados de Astarte.
  • Companheira de Baal. Embora não exatamente “esposa” no sentido grego, atua em par com Baal (senhor da tempestade) e com Anat (deusa-irmã, mais bélica) na mitologia ugarítica.

Astarte e o Antigo Testamento

Os textos hebraicos do AT mencionam Astarte (singular ʿAshtoret e plural Ashtarot) repetidamente — geralmente em polêmica condenatória. Salomão é acusado em I Reis 11 de ter erguido um santuário a Astarte. Os profetas atacam o sincretismo “Iahveh + Astarte” recorrente no Israel pré-exílico. Essa polêmica bíblica é, ela mesma, prova arqueológica indireta de quão presente Astarte era na religião popular israelita antes da reforma josiânica (~622 a.C.).

A ponte cipriota

O elo crítico para a cadeia sincrética está em Pafos, na ilha de Chipre. Pafos era colônia/posto comercial fenício desde pelo menos o séc. XII a.C., e abrigava um templo importantíssimo de Astarte. Quando os gregos micênicos e depois aqueus chegaram a Chipre, encontraram esse culto bem estabelecido e o adotaram, renomeando-o como “Afrodite”.

Os autores gregos sabiam disso: Heródoto (séc. V a.C.) afirma explicitamente em Histórias I.105 e I.131 que o culto de Afrodite veio dos sírios (= levantinos) via Pafos e Citera. Pausânias confirma. O nome Aphrodítē Ourania (Afrodite Celestial) é provavelmente tradução grega do epíteto fenício Astarte da altura / Senhora dos céus.

Cartago e Tanit

Quando os fenícios fundaram Cartago (~814 a.C.), levaram Astarte — mas lá ela se fundiu/foi substituída por Tanit (Tnt), divindade local norte-africana. Tanit absorveu funções de Astarte e tornou-se a deusa principal de Cartago, com epíteto “rosto de Baal”.

Sincretismos

  • Ishtar ← acadiano (origem direta)
  • Astarte ← cananeu-fenício (este artigo)
  • Tanit ← norte-africano (filha-cartaginesa)
  • Afrodite ← grego (via Pafos)
  • Vênus ← romano

Perspectiva do jogo

Em Mensageiros do Vento, Astarte é a camada cananeia/fenícia da cadeia. Personagens com origens marítimas, comerciais, ou ligadas ao Mediterrâneo oriental in-game invocam Astarte. A Wiki mantém explícito que ela não é exatamente Ishtar nem é exatamente Afrodite — está entre as duas, no momento histórico em que a deusa atravessa o mar para o Ocidente.

Veja também

Relações

Sincretismos

  • Ishtar — Ishtar acadiana → Astarte cananeia/fenícia. Cognato semítico direto via raiz 'ṯtr.
  • Afrodite — Astarte → Afrodite via Pafos (Chipre). Atestado por Heródoto, arqueologia confirma templo herdado.

Relacionados

  • Pafos — Pafos: templo fenício de Astarte estabelecido no Bronze Tardio; ponte para Afrodite.
  • Ugarit — Ugarit é fonte textual primária do panteão cananeu — Astarte aparece no Ciclo de Baal e em hinos.
  • Eryx — Eryx: camada fenícia mais antiga do templo dedicada a Astarte (~VIII a.C.).
  • Cartago — Cartago: Tanit absorveu funções de Astarte (herdada da metrópole tíria) e tornou-se deusa principal local.
  • Baal — Baal e Astarte: par cultual recorrente no Levante (não cônjuges no sentido grego, mas atuam juntos).
  • El — El é pai do panteão cananeu de que Astarte é figura central.
  • Anat — Anat e Astarte: par feminino do panteão cananeu, com funções complementares (Anat bélica-vingadora, Astarte erótica-política).
  • Asherah — Asherah e Astarte são figuras femininas centrais do panteão cananeu, com funções distintas (Asherah materna, Astarte erótica-política).