Ishtar

Versão acadiana/babilônica/assíria de Inanna. Mantém o paradoxo amor/guerra mas com ênfase bélica fortemente acentuada. Deusa do Estado, da realeza e da Vênus astronômica.

Ishtar em selo cilíndrico do Império Acadiano (~2300 a.C.)
Ishtar em selo cilíndrico do Império Acadiano (~2300 a.C.)Wikimedia Commons

Etimologia

Ishtar (acadiano Ištar; assírio Issar) é o nome semita da deusa que os sumérios chamavam Inanna. A raiz 'ṯtr é comum a várias línguas semíticas e dá origem também ao nome cananeu Astarte, à divindade árabe pré-islâmica Athtar (deus, masculino) e ao etiópico Astar. É um dos nomes divinos mais difundidos do antigo Oriente Próximo.

Continuidade e ruptura com Inanna

Quando os semitas acadianos, sob Sargão (~2334 a.C.), tomaram a Suméria, adotaram Inanna como Ishtar. A continuidade é massiva — os mesmos mitos (descida ao mundo inferior, Tammuz/Dumuzi, touro celeste, etc.) reaparecem traduzidos para o acadiano. Mas há ênfases que mudam:

  • Guerra mais proeminente. Inanna era amor + guerra em equilíbrio paradoxal. Ishtar é amor + guerra com a balança pendendo para a guerra, sobretudo na tradição assíria. Reis assírios atribuem suas vitórias a Ishtar (Ishtar de Nínive, Ishtar de Arbela).
  • Deusa do Estado. Ishtar é mais “imperial” que Inanna. Onde Inanna era senhora de uma cidade (Uruk), Ishtar é senhora do império.
  • Astronômica codificada. O equacionamento Ishtar = planeta Vênus é explicitado e ritualizado no calendário babilônico.

Mitos próprios

Ishtar tem seus próprios textos, e o mais conhecido é a versão acadiana da Descida ao Mundo Inferior, mais curta e seca que a sumeriana. Aparece com força no Épico de Gilgameš (Tabuleta VI), onde é Ishtar (não Inanna) que se propõe a Gilgameš e é recusada — e libera o Touro do Céu como vingança.

O Hino a Ishtar, atribuído a Ammi-ditana (séc. XVII a.C.), é texto importante: louva Ishtar como simultaneamente “a mais amorosa das deusas” e “a mais terrível das deusas”.

A Porta de Ishtar

O monumento mais famoso ligado ao seu culto é a Porta de Ishtar, construída por Nabucodonosor II (~575 a.C.) em Babilônia, recoberta de azulejos azuis com leões, touros e dragões em relevo. Hoje, parte reconstruída no Museu de Pérgamo em Berlim, é uma das peças centrais da arqueologia mesopotâmica.

Sincretismos

A cadeia continua:

  • Inanna ← origem sumeriana
  • Ishtar ← versão acadiana/babilônica (este artigo)
  • Astarte → versão cananeia/fenícia
  • Afrodite → versão grega
  • Vênus → versão romana

A identificação Ishtar = Astarte é direta etimologicamente. A passagem Ishtar/Astarte → Afrodite é arqueologicamente comprovada pelo culto em Pafos, Chipre — colônia fenícia onde Astarte era cultuada, e onde os gregos depois construíram um dos maiores templos de Afrodite do mundo helênico.

Perspectiva do jogo

Em Mensageiros do Vento, Ishtar é tratada como camada acadiana/babilônica da mesma realidade espiritual de Inanna — sob a lente teosófica, uma hipóstase; sob a lente histórica, uma evolução cultural. A Wiki marca os dois enquadramentos.

Personagens in-game que vêm da tradição babilônica/assíria (Nínive, Babilônia, Mari) invocam Ishtar; personagens da tradição sumeriana (Ur, Uruk, Eridu) invocam Inanna; alguns reconhecem a unidade subjacente, outros não.

Veja também

Relações

Sincretismos

  • Inanna — Inanna suméria vira Ishtar na Acádia/Babilônia (~2334 a.C. com Sargão).
  • Astarte — Ishtar acadiana → Astarte cananeia/fenícia. Cognato semítico direto via raiz 'ṯtr.

Relacionados

  • Nanna — Nanna é pai de Inanna; transição sumério→acadiano traz também Sin como pai de Ishtar.
  • Babilônia — Babilônia abriga a Porta de Ishtar; centro de culto da deusa em seu apogeu imperial.
  • Nínive — Ishtar de Nínive — avatar bélico local da deusa, patrona dos reis assírios.
  • Acádia — Acádia é a origem do nome Ishtar e da sua difusão imperial via sincretismo Inanna=Ishtar costurado por Enheduanna.
  • Sin — Sin é pai de Ishtar em algumas tradições (Sin → Ishtar como Nanna → Inanna).
  • Shamash — Shamash e Ishtar: irmãos (em algumas tradições, gêmeos) — sol e estrela da manhã/tarde.
  • Anat — Anat e Ishtar: paralelo direto na dimensão bélica do feminino divino mesopotâmico-levantino.