Cartago

Cidade fenícia fundada por colonos de Tiro ~814 a.C. no norte da África. Império talassocrático mediterrâneo. Astarte se transformou ali em Tanit. Destruída por Roma em 146 a.C. Reconstruída como capital romana, hoje subúrbio de Tunis.

Banhos de Antonino em Cartago — vestígios do período romano da cidade fundada pelos fenícios
Banhos de Antonino em Cartago — vestígios do período romano da cidade fundada pelos feníciosWikimedia Commons

Localização e nome

Cartago (fenício 𐤒𐤓𐤕𐤇𐤃𐤔𐤕, Qart-ḥadašt, “cidade nova”; latim Carthāgō; grego Karkhēdṓn) foi cidade-Estado fenícia e depois colônia romana no norte da África. O sítio antigo corresponde hoje a um subúrbio costeiro de Tunis, capital da Tunísia.

O nome “cidade nova” contrasta com a metrópole fenícia originária, Tiro, no Levante — Cartago era a nova Tiro do Mediterrâneo ocidental.

Período

Fase fenícia/púnica (~814–146 a.C.)

  • Fundação (~814 a.C., tradicionalmente) — colonos fenícios de Tiro sob liderança da rainha Elissa/Dido (figura semi-mítica, imortalizada na Eneida de Virgílio como amante de Eneias).
  • Expansão — Cartago torna-se potência talassocrática dominando o Mediterrâneo ocidental, com colônias na Sicília, Sardenha, Córsega, Hispânia, ilhas Baleares.
  • Guerras Púnicas contra Roma (264–146 a.C.) — três guerras que decidem o controle do Mediterrâneo:
    • Primeira (264–241 a.C.) — Roma toma a Sicília.
    • Segunda (218–201 a.C.) — Aníbal cruza os Alpes; vitórias célebres em Trasimeno e Canas; perdida na Batalha de Zama.
    • Terceira (149–146 a.C.) — Roma destrói Cartago, sala o solo (segundo a tradição) e mata ou escraviza os habitantes. Fim do estado púnico.

Fase romana (~46 a.C. em diante)

  • Recolonização por Júlio César e Augusto — Cartago renasce como capital da província romana da África Proconsular.
  • Apogeu nos séc. II–III d.C. — uma das maiores cidades do Império. Banhos de Antonino, anfiteatro, teatro, circo, basílicas.
  • Sede de centros cristãos importantes — Tertuliano, Cipriano, Agostinho estudou ali.
  • Conquistada por vândalos em 439 d.C., bizantinos em 533, árabes em 698. Declínio definitivo.

Tanit absorve Astarte

A peculiaridade religiosa de Cartago é a emergência de Tanit (fenício Tnt) como deusa principal — figura que absorve e supera Astarte, herdada da metrópole tíria.

Quando os fenícios fundaram Cartago, levaram Astarte. Mas ali ela se fundiu/foi substituída por Tanit, divindade local norte-africana (provavelmente de origem berbere parcialmente assimilada). Tanit absorveu funções de Astarte e tornou-se a deusa principal de Cartago, com epíteto “Tanit Pene Baal” (Tanit, rosto de Baal).

O par cultual cartaginês central é Tanit + Baal Hammon. O Tofet de Cartago — recinto sagrado com milhares de estelas votivas e urnas — testemunha esse culto. A interpretação dos tofetes como locais de sacrifício infantil é tema controverso na arqueologia atual: alguns interpretam como tal (seguindo as fontes greco-romanas, hostis a Cartago); outros como necrópoles infantis comuns. A verdade provavelmente está entre os dois.

Perspectiva do jogo

Em Mensageiros do Vento, Cartago é, sob a lente do jogo, a primeira grande mutação completa de nome dentro da cadeia.

Pafos mostrou Astarte virando Afrodite sem mudar o templo nem o lugar. Eryx mostrou camadas sincréticas empilhadas. Cartago é diferente: aqui a deusa muda de nome para algo novo (Tanit) e ganha personalidade própria que excede a herança fenícia. A continuidade Astarte-Tanit existe — o material teológico é o mesmo — mas o rosto local é tão forte que se torna mais conhecida como deusa norte-africana do que como derivação fenícia.

Esse padrão (deusa antiga que vira deusa nova com nome local) é, sob a leitura do jogo, uma das formas que a Sophia toma quando escapa de uma forma demiúrgica e ainda não foi capturada pela próxima. Tanit é Sophia entre a teologia tíria e a teologia romana, num interlúdio cartaginês de cerca de seis séculos.

A destruição de Cartago por Roma em 146 a.C. é, sob a leitura, evento demiúrgico maior: Roma elimina não só uma potência política rival, mas uma forma cultual que escapava do controle imperial. O salar o solo (mítico mas semioticamente potente) é gesto de apagamento ritual.

Que Cartago renasça como cidade romana algumas décadas depois é típico do método demiúrgico: destruir a forma anterior e reocupar o lugar com a forma própria. Sob essa nova capa, Cartago romana torna-se um dos centros do cristianismo primitivo — outra teologia, outra capa, mas mesmo lugar geográfico.

Os Mensageiros que acessam Cartago akáshica encontram três camadas dolorosamente sobrepostas: a deusa Tanit ainda viva sob o solo salgado; a Roma triunfal das ruínas dos banhos; o cristianismo proto-ortodoxo dos padres latinos. Lugar denso.

Veja também

  • Astarte (origem fenícia de Tanit)
  • Ugarit (fonte do panteão cananeu)
  • Pafos (outra deusa cipriota Astarte→Afrodite)
  • Eryx (em diálogo cultural com Cartago via Sicília)
  • Sincretismo

Relações

Relacionados

  • Astarte — Cartago: Tanit absorveu funções de Astarte (herdada da metrópole tíria) e tornou-se deusa principal local.

Veja também

  • Ugarit — Ugarit (e seu legado fenício via Tiro) é a fonte cananeia da qual Cartago herdou Astarte antes de transformá-la em Tanit.