Gnosticismo

Corrente religiosa dos primeiros séculos da era cristã que via a salvação como fruto da gnose — conhecimento direto e libertador da realidade divina por trás do mundo material.

Etimologia

A palavra gnose vem do grego γνῶσις (gnôsis), “conhecimento” — mas não no sentido de informação acumulada (epistēmē), e sim de conhecimento direto, vivencial, transformador. Gnosticismo é o nome moderno (cunhado no séc. XVIII) para um conjunto de correntes religiosas dos primeiros séculos da era cristã que faziam dessa gnose o caminho da salvação.

Visão de mundo

O traço comum às escolas gnósticas é uma cosmologia dualista: o mundo material em que vivemos não é a obra de um deus bom e perfeito, mas de uma entidade inferior, o Demiurgo (em algumas escolas chamado Yaldabaoth, Saklas ou Samael). Acima dele existe o Pleroma — a plenitude divina —, povoado de emanações ou éons do Deus verdadeiro e desconhecido. Sophia, sabedoria divina caída, é em muitas versões a responsável involuntária pela criação do Demiurgo.

O ser humano carrega dentro de si uma centelha divina (o pneuma), aprisionada na matéria. A salvação consiste em despertar essa centelha pela gnose: reconhecer a si mesmo como estrangeiro neste mundo, reconhecer o Demiurgo como falso deus, e retornar ao Pleroma.

Escolas

  • Valentiniana — fundada por Valentino (séc. II) em Alexandria e Roma. A mais filosófica e refinada; ensinava uma hierarquia de éons aos pares e via Cristo como redentor enviado pelo Pleroma para libertar Sophia e os pneumáticos.
  • Setiana — centrada na figura de Set, terceiro filho de Adão, como semente espiritual perfeita. O Apócrifo de João é o texto-chave.
  • Marcionista — Marcião de Sínope (séc. II) opôs radicalmente o “Deus justo” do Antigo Testamento (visto como Demiurgo) ao “Deus bom” revelado por Jesus. Foi excomungado pela Igreja proto-ortodoxa em 144 d.C.
  • Basilidiana — escola de Basílides, também alexandrina, com cosmologia de 365 céus e ênfase no Cristo docético.

Fontes

Por séculos o gnosticismo foi conhecido só através de seus inimigos — Irineu de Lyon (Adversus Haereses, ~180 d.C.), Hipólito, Tertuliano, Epifânio. Em 1945 uma jarra de barro encontrada em Nag Hammadi (Egito) revelou 13 códices coptas com 52 textos gnósticos preservados, entre eles o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe, o Apócrifo de João e a Pístis Sophia. A descoberta refez a história da espiritualidade cristã primitiva.

Perspectiva do jogo

Em Mensageiros do Vento, a lente gnóstica não é um detalhe decorativo: é o eixo da narrativa — mas o jogo a aplica com duas inversões em relação à doutrina histórica.

Primeira inversão — o Demiurgo é Enki, não Enlil. A leitura mais direta apontaria para Enlil, o senhor do comando, que decreta o dilúvio e cuja “palavra não pode ser alterada” — um perfil próximo do YHWH-Demiurgo da equação marcionista. O jogo desvia: o arquiteto da ordem é Enki, criador da humanidade em argila e desenhador dos me’s — os decretos cósmicos que fundam a civilização. E Enlil não é nem mesmo cúmplice — foi ele quem liderou a facção opositora a Enki (com Nanna e Inanna), e foi por isso que o Demiurgo o eliminou pelo engano (fazendo Inanna matá-lo após uma mentira sobre Enheduanna). Confundir Enlil com executor do Demiurgo é precisamente o equívoco que a operação de Enki produziu na memória sumeriana e em suas heranças.

Segunda inversão — o que foi criado não é o universo material. O gnosticismo clássico identifica a “prisão” com a matéria, e a salvação com a fuga do corpo. No jogo, a prisão é psicológica e social: as estruturas das sociedades, herdadas desde a antiga Suméria, continuamente reforçadas pelas lutas de classe e pelas religiões dominantes sucessivas. O corpo não é uma cela; a forma herdada de viver, sim.

Nessa releitura, Sophia — a sabedoria caída que escapa ao Demiurgo — manifesta-se em Inanna (que rouba os me’s de Enki em Eridu, integrou a facção opositora, e depois carregou o erro irreparável de ter sido a mão usada para matar o próprio avô) e em suas hipóstases sucessivas, até a personagem Aurora. A continuação da guerra interrompida está em Aurora e Ereshkigal — ver suas páginas.

A Wiki distingue de forma rigorosa o que é interpretação gnóstica do jogo (com essas inversões), o que é gnosticismo histórico-acadêmico (cosmologia dualista materialista) e o que é fato histórico-arqueológico sobre a mitologia mesopotâmica (como ela era cultuada). Quando os três se cruzam, o leitor é avisado.

Veja também

  • Sincretismo
  • Teosofia
  • Demiurgo
  • Enki
  • Enlil
  • Inanna
  • Enheduanna
  • Aurora
  • Ereshkigal
  • Registros Akáshicos