Capítulo 1
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A minha história começa em uma pequena aldeia, no meio de uma floresta entre as montanhas. Não éramos muitos, nosso número não chegava a 60 pessoas. Eu conhecia todos pelo nome e os considerava minha família.
Em uma noite, acordei encharcada de suor, depois de um sonho aterrorizante, em que pessoas que eu não conhecia, com marcas vermelhas, brancas e pretas cobrindo seus rostos, corriam por entre nossas casas, balançando suas armas primitivas em nossa direção. Vi um parente caindo quando a pedra na ponta do galho de um dos invasores o atingiu em cheio na cabeça, para nunca mais levantar.
Eu me lembro de, em meio ao caos, correr em direção à minha casa, procurando pelos meus irmãos. Meus pais haviam saído mais cedo para trazer os peixes das armadilhas deixadas no rio, e, pelas sombras que as árvores projetavam, demorariam mais algumas horas para voltar.
Enquanto corria, eu tentava entender o que estava acontecendo. Meu cérebro processava pela primeira vez a experiência assustadora da violência. Em nossa aldeia, éramos uma grande família, nunca tivemos contato com pessoas de outras origens, até onde sabíamos, poderíamos ser os únicos seres humanos no planeta. Mas não éramos.
Não tínhamos armas, éramos um povo pacífico. Usávamos pequenas armadilhas para capturar presas, e sabíamos encontrar na floresta alimentos para completar nossa dieta. Nunca houve a necessidade de criar ferramentas para tirar a vida de um animal maior do que uma galinha.
Enquanto corria, pensava em uma forma de proteger meus irmãos. Carregava uma pequena faca de obsidiana usada para limpar peixes e segui na direção de onde acreditei ter ouvido gritos da minha irmã.
Atravessei até o outro lado da aldeia e encontrei minha irmã caída aos pés de uma árvore. Ela tinha um corte na testa e o sangue cobria metade do seu rosto, enquanto chorava pedindo socorro. Dois dos desconhecidos estavam caminhando em sua direção, um carregava um pedaço de madeira com pedras amarradas de cada lado. O segundo segurava uma vara longa com a ponta afiada e endurecida pelo fogo.
Encontrei uma pedra aos meus pés e com toda a força que consegui reunir, atirei contra a cabeça do homem que carregava a lança, ele caiu com um barulho seco no chão. O homem que o acompanhava se virou tentando entender o que acontecia. Vendo que eu estava armada apenas com uma pequena faca, tentou correr em minha direção, levantando sua arma acima da cabeça para desferir um golpe com todo o peso daquelas pedras contra mim.
Antes de dar o primeiro passo, no entanto, minha irmã conseguiu se levantar, pulou contra suas pernas e mordeu-lhe a panturrilha com toda força. O sangue começou a escorrer pelo pé do homem que, imediatamente, mudou de alvo e ao invés de desferir um golpe na minha direção, mirou na cabeça de minha irmã.
Meu instinto de sobrevivência tentou falar mais alto, não me dando tempo para aceitar o que havia acabado de acontecer, tentou fugir, levar o meu corpo para o mais distante daquele local, o mais rápido possível. Mas era tarde demais, ao me virar para correr, me deparei com um dos intrusos já golpeando com toda a força, segurando a sua arma, na direção da minha cabeça. Apaguei. Ao voltar, lembro-me de ver o osso, branco, pontiagudo, no local em que havia quebrado, onde segundos antes estivera meu braço e minha mão inteiros. Uma dor intensa, comecei a ficar tonta, o mundo rodava, um zumbido alto no ouvido, e, em seguida, despertei.
Meu coração estava a mil, ainda conseguia senti-lo batendo em meu peito, tão forte que chegava a doer. Mas minha mão estava no lugar, e a cabeça não doía. O suor havia colado o cabelo no meu rosto e molhado a cama, fazendo com que eu sentisse ainda mais o frio da noite. Custei a me acalmar e voltar a dormir, o dia já estava quase nascendo.
Na minha família, pouco se falava a respeito de sonhos. Nem todo mundo conseguia se lembrar dos seus depois que o dia raiava. Na maioria das vezes, os sonhos eram sobre encontrar um cogumelo maior que os outros que já havia encontrado antes, ou sobre armadilhas tão cheias de peixe que pareciam prestes a estourar.
Raramente faziam sentido, no entanto, de tempos em tempos sonhava-se com coisas novas. Contavam que foi assim que um dos nossos antepassados construiu a primeira armadilha de peixe, a mesma que usávamos naquela época. Era dito que aqueles que lembravam dos sonhos eram filhos da Lua e do Céu.
Mesmo com alguns filhos da Lua e do Céu, nunca ouvi relato de sonhos como esse que tive. A violência não era uma coisa normal em nosso povoado. De fato, a violência não existia. Desde o momento em que nasci ali até o dia desse sonho, não presenciei e nem ouvi qualquer relato que pudesse criar, no meu subconsciente, aquelas imagens aterrorizadoras.
Aquele sonho deixou uma sensação horrível. Mesmo depois de acordar pela segunda vez, com o Sol já no céu, aquela angústia insistia em meu peito. Passou apenas quando encontrei minha irmã rindo, correndo na direção de casa com a bolsa cheia de peixes para o café da manhã, então toda a memória do sonho desapareceu por completo, a dor no meu peito arrefeceu e toda a preocupação me abandonou.
Quatro semanas depois tive exatamente o mesmo sonho. Dessa vez, ao acordar de madrugada assustada e angustiada, vi uma luz entrando pela porta do meu quarto vindo do quarto da minha irmã, nele se encontravam vovó e os demais líderes da aldeia. Vovó foi chamada após metade da aldeia ser acordada por gritos vindos de nossa casa. Nada contou à nossa avó o sonho que tivera, o causador de toda aquela comoção, e ao fim desse relato, os líderes da aldeia também foram requisitados. Era chegada a hora de uma história, um sonho antigo, ser relembrada.
Uma de nossas antepassadas tivera um sonho como esse, muito tempo atrás. Nossa família se exilou naquela região montanhosa por conta disso. Nesse sonho ela era perseguida por uma fera. Ela correu até que se viu defronte um rio de forte correnteza, estava completamente sem saída, não conseguiria atravessar um rio como aquele, se não tentasse, porém, a fera a devoraria. Foi quando avistou um tronco de árvore caído, atravessado por cima do rio, e com um pouco de equilíbrio e sorte, ela poderia chegar à outra margem. Na tentativa de atravessar, o tronco cedeu e ela caiu no rio caudaloso. Foi aí que o sonho terminou.
Ao contar seu sonho aos familiares, foi decidido que abandonariam aquela região, criando distância de todo o grande rio e das áreas habitadas por predadores. E assim, desde então, nossos ancestrais se estabeleceram no lugar onde morávamos, acreditando terem se afastado o suficiente para evitar que aquele sonho viesse a se realizar.
Não sobraram muitas histórias da vida que esses nossos antepassados tiveram, ou de onde vieram, quase tudo foi esquecido. Entretanto, a história do sonho dessa mulher continua sendo contada, apesar de não abertamente, sempre há pelo menos uma pessoa na aldeia que conhece a história, e, sempre que é chegada a hora, ela é passada adiante.
Foi premonizado que, no futuro, outra criança teria um sonho assim, e quando isso acontecesse, esse aviso não deveria ser ignorado. Pois, assim como conseguimos evitar a tragédia no passado, poderíamos evitar a tragédia no futuro.
Ela também nos ensinou que a imaginação tem um poder enorme de influenciar os nossos sonhos, e que a experiência da realidade é fundamental para a construção dela. Com isso em mente, melhor fosse a nossa realidade, melhor seria a nossa imaginação e, consequentemente, os nossos sonhos. Nossa cultura e comunidade foram planejadas para evitar que as crianças tivessem sonhos ruins, para que assim fosse possível reagir ao sonho premonitório que viria em algum momento. Disse-lhes que não haveria tempo a perder quando o momento chegasse: quanto mais rápido eles reagissem, maiores as chances de escaparem do perigo iminente.
O dia iria amanhecer em breve, vovó e os líderes decidiram que assim que fosse possível enxergar o caminho, um grupo iria recolher as armadilhas enquanto os demais ficariam responsáveis por guardar nossos pertences mais essenciais. As notícias e o plano foram compartilhados com o restante da aldeia: sairíamos em direção ao leste, o objetivo era atravessar as montanhas. Após elas havia um grande rio e uma região pantanosa com um ponto elevado com excelente visão da região, permitindo observar o comportamento dos animais em segurança. O solo era fértil, fácil de manusear e talvez algumas mudas vingassem.
Era um bom plano, poderia ter funcionado se a aldeia tivesse sido informada quando o sonho premonitório surgiu pela primeira vez.
Meus pais foram recolher as armadilhas, minha irmã foi em direção à cozinha embalar o que precisaríamos carregar durante a viagem. Eu corri ao templo para pegar o pouco que era insubstituível. Porém, antes que eu pudesse entrar nele, ouvi os gritos vindos do sul. Me deparei com o pior: meu pesadelo se tornava realidade à minha frente. Aqueles homens estranhos haviam nos encontrado.
Tudo aconteceu como em meu sonho, exceto por um detalhe: quando encontrei minha irmã com seu corte profundo na testa, ela não chorava pedindo ajuda, parecia procurar alguma coisa, alguém. Nossos olhares se cruzaram e sua expressão era de medo, de adeus — e ressentimento, talvez fosse a minha culpa se manifestando ou talvez ela tenha percebido minha hesitação por um momento, ao notar a diferença entre meu sonho e a realidade. De qualquer forma, não tivemos tempo para mais nada.